No meio do turbilhão em que se transformou a bolsa nas últimas semanas, respirou aliviado ontem o setor de construção civil. Bastou o megainvestidor americano Sam Zell, velho conhecido do mercado, anunciar que pretende colocar mais dinheiro em construtoras no Brasil para os operadores de plantão voltarem para o setor na tentativa de surfar a onda.
O curioso é que, uma semana atrás, esse mesmo investidor derrubou o mercado local de construção, ao anunciar a redução de participação na Gafisa, empresa que estava, e continua, no seu portfólio desde 2005. Na ocasião, a notícia soou como uma espécie de toque de recolher para um segmento que já vinha sofrendo na bolsa com a turbulência externa.
"A leitura dos investidores foi de que, se um tradicional investidor do setor estava saindo, não havia motivos para ficar", explica o analista de construção civil da corretora Spinelli, Kleber Hernandez. A confiança dos investidores ficou abalada com a notícia, reitera o analista do setor na Ativa, Armando Halfeld.
Mas o que se percebeu ontem foi que Sam Zell, na verdade, estava fazendo uma realocação de portfólio, acrescenta Halfeld. Ou seja, ele vendeu parte da fatia que detém na Gafisa - a Equity International, da qual é dono, ainda ficou com 7,2% do capital total da empresa - para buscar novas construtoras. Em entrevista à agência Bloomberg, o principal executivo do grupo, Gary Garrant, disse que a empresa está levantando US$ 500 milhões, dos quais dois terços serão aplicados no setor de construção brasileiro, em empresas que atuam nos segmentos residencial e comercial.
Na contramão do principal índice da Bovespa - que fechou com queda de 2,51%, a 58.192 pontos -, o setor subiu de forma acentuada, com as construtoras ocupando as seis primeiras posições no ranking das maiores altas. A maior valorização do Ibovespa ontem ficou com as ordinárias (ON, com direito a voto) da MRV, que subiram 7,68%. Em seguida, apareceram as ON de Cyrela Brazil Realty, com alta de 5,94%, Agre (+5,84%), PDG Realty (+5,50%), Rossi Residencial (+4,95%) e a própria Gafisa (+3,12%).
No ano, contudo, essas ações ainda amargam perdas maiores até que a do Ibovespa. Para se ter ideia, o índice do setor, o Imob, subiu ontem 3,72%, mas ainda perde 19,83% no ano. Já o Ibovespa, com a queda de 2,51% ontem, passou a uma desvalorização de 15,16% em 2010. Essa diferença deve-se ao fato de o setor de construção figurar entre os de maior volatilidade, com oscilações mais fortes que a bolsa, tanto para baixo quanto para cima.
Até por isso o atual cenário de crise na Europa tem machucado mais o setor, apesar dos bons fundamentos, afirmam os analistas. Neste ano, as construtoras também tiveram de lidar com as expectativas de alta da taxa Selic. Hoje, isso já não é mais uma pedra no sapato dessas empresas, lembra o chefe de análise da Bradesco Corretora, Carlos Firetti. "Com essa crise, podemos ter um ciclo de alta de juro menos pronunciado e isso pode ser um novo catalisador para o setor", afirma.
Não dá para deixar de mencionar que a economia doméstica em plena expansão - não se espera freada brusca - favorece o setor, que já está bem aquecido. As vendas de imóveis continuam crescendo, e os preços estão nas alturas. Com perspectivas tão positivas para o setor, até Sam Zell se surpreendeu com a reação negativa do mercado à venda da fatia na Gafisa, apurou a repórter Daniela D'Ambrosio com fontes próximas ao investidor.