Ao longo de uma vida na qual os centavos sempre foram contados e comemorados, na qual o que não era bom para a maioria das pessoas era razoavelmente ótimo para ela, a dona de casa Delza de Souza Gonçalves acabou traçando um retrato de toda a população que nunca conseguiu um dos direitos mais básicos. Com 60 anos, Delza passou os últimos 32 anos em seis diferentes favelas de São Paulo - no fim dos anos 1970, o marido dela ficou desempregado, foi desalojado, e começou então a peregrinação por invasões no Peri, em Taipas, duas na Brasilândia, na Freguesia do Ó e na Água Branca - hoje, mora às margens de um córrego fétido que deságua no Rio Tietê. "Eu nunca consegui uma folga de R$ 500 no orçamento, o que seria suficiente para pagar aluguel, água e luz fora da favela", diz ela, resumindo a trajetória e o sentimento de quase 1,3 milhão de favelados paulistanos.
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Dona Delza é também um exemplo da situação habitacional da capital. Segundo levantamento feito pelo Estado, com base no banco de dados da Secretaria Municipal da Habitação (Sehab), o número de favelas caiu pela primeira vez na história da cidade. Após o crescimento vertiginoso nas décadas de 80 e 90 e a estabilidade nos últimos dez anos, as invasões sofreram agora uma leve e inédita queda - em 2008 eram 1.641 favelas e atualmente são 1.636.
Os motivos passam pela falta de novos terrenos para a criação de ocupações e pela desapropriação de favelas na capital. Ainda assim, o cenário não é otimista, uma vez que a população favelada continua crescendo, num ritmo quase duas vezes superior à da média paulistana. Hoje, conforme a Sehab, são cerca de 1,3 milhão de pessoas em favelas, número que cresce 3,7% ao ano.
Segundo especialistas, a população favelada cresce pois as famílias não conseguem romper com o ciclo da submoradia - assim, filhos saem de casa para ir morar em outro barraco, em outra invasão.
MAIS ESPREMIDAS
"A maior parte dos espaços vazios já está ocupado, então o número de favelas cai. Ao mesmo tempo, elas ficam mais espremidas e mais verticalizadas", diz Maria Lucia Refinetti Martins, professora do Laboratório de Habitação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. "Há também o reflexo das desapropriações. Não adianta dar um cheque para a família sair de uma favela, se depois ela vai para outra. Só empurra o problema para outro lugar."
É justamente o caso de dona Delza. "Recebi um cheque de R$ 5 mil no começo do ano passado, quando a favela onde estava foi removida. Só consegui comprar este barraco, que está caindo aos pedaços. Preciso agora de outro cheque, não aguento mais tomar chuva em barraco de favela."